Horácio sentou-se, como era seu costume fazer em
todas as manhãs, sob a gigantesca mangueira perto da porteira para observar o “seu”
Barreto passar com as vacas à hora da ordenha. Ele gostava da vida na fazenda e
jamais sua tenra mente de criança, aos quase sete anos de idade, se imaginara
em outro lugar que não aquele ali, mas ouvia um rumor em sua casa de que talvez
sua família fosse embora, morar na cidade onde ele e os irmãos um pouco mais novos
que ele poderia frequentar a escola. Horácio, se bem que não visse como uma
obrigação estar ali todos os dias à mesma hora observando o empurra-empurra das
vacas mugindo chamando pelas crias, tinha a missão de pegar o leite que
beberiam no café da manhã. Mas aquele negócio de ir para longe... Estava ai uma
ideia que não o atraia nem um pouco. Todos os dias, enquanto esperava o passar
dos animais e consequentemente que sua vasilha fosse cheia com o leite
quentinho tirado na hora, ele se imaginava no lugar daquele homem sobre o belo
cavalo, que vinha todas as manhãs gritando com a boiada até que entrassem no
curral. Por algumas vezes, chegava mesmo a fechar os olhos para que sua
imaginação tivesse mais força e ganhasse contornos de realidade. E assim já não
era mais o “seu” Barreto tocando o gado, mas sim ele, Horácio, quem vinha
conduzindo os animais cantando aquela bela canção que o “seu” Barreto, com sua
voz rouca, gostava de cantar para acalmar, segundo ele mesmo, a boiada. Como alguém
poderia querer uma vida que não fosse aquela? Perguntava para si mesmo,
pensando nas muitas vezes em que repreendera os irmãos mais novos quando,
cheios de euforia, mencionavam terem ouvido os pais confidenciarem um ao outro
sobre a possibilidade de irem morar na cidade. “Mas nem sonhando, uma coisa dessas pode acontecer”! Gritava ele
para os menores que saiam correndo e rindo das bravatas do irmão. Se acontecesse, daria um jeito de ficar para
trás, pensava Horácio consigo. Nem que para isso tivesse que fugir de casa não
iria morar na cidade de jeito nenhum, chegou a deixar escapar certa vez, tendo
que daí fazer muitas ameaças aos irmãos para que aquelas palavras não caíssem nos
ouvidos dos pais. Contudo, ainda que planejasse mil e uma maneiras de escapar
da mudança, sabia que no fim da história teria que ir junto... Não tinha como
ficar para trás e mesmo que tivesse, faltava coragem para abandonar sua mãe...
Iria, não havia jeito, mas um dia retornaria para aquele lugar onde a
felicidade virava imaginação e brincava de ser vaqueiro em todas as manhãs...
Ribeiro Filho

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