quinta-feira, 24 de abril de 2014

Cativeiro e Liberdade


“Se existe alguma distinção entre os dois extremos __Cativeiro e Liberdade__ tal é tão ínfima que se faz imperceptível”.  Geraldo R filho
Parte I

Por seus ideais de liberdade, homens de todas as nações e épocas travaram as mais ferrenhas batalhas, derramaram sangue, tiveram seu sangue derramado, e incontáveis outros deram suas vidas pela pregação da utopia particular de alguém que soube traduzir em palavras eloqüentes e cativantes, algo que parecia ser grandioso e finalmente a salvação dos homens  ___“O sonho da Liberdade”!

Não é obscuro a ninguém que todas as fronteiras do mundo foram forjadas à base do aço que retinia nas ferrenhas batalhas e que as nações foram concebidas sob as mais terríveis dores, tendo os seus alicerces sobre o sangue daqueles que morreram para que fosse fundada.  Pelo sonho da liberdade os homens davam-se aos braços da morte onde o ganho, segundo aqueles que os instigavam na peleja, era um mundo livre para seus filhos e netos. Enfim, seus descendentes depois deles, e por isso eram imolados sobre o altar de um “futuro” que não seria deles, mas de outros.  Quão sensata era tal filosofia e quão nobre era esse pensamento? Se estivessem vivos para ver o resultado de suas lutas, concluiriam que a liberdade do ponto de vista concebido pelos homens não vai alem do que já foi escrito acima ___uma mera utopia.  Por quê? Passaremos a entender nas linhas que se seguem.

O que se entende por Liberdade ou, antes, o que significa ser livre? Isso é algo difícil de definir. Contudo, ao entendermos a que nos leva o suposto sentimento de liberdade, então descobriremos que enquanto o homem for carne, jamais será um Ser livre.

Para começo de conversa, todos nós somos escravos de desejos, muitos deles impróprios, contra os quais vivemos em uma batalha épica e em um sem número de vezes fomos suplantados, vencidos por eles e acabamos no cativeiro da culpa e na prisão do remorso. Até ai tudo bem, pelo menos aparentemente. Em determinados casos um pedido de perdão sincero, motivado por um arrependimento genuíno pode sanar o problema e nos libertar. Porém, acabamos aqui por nos tornar escravos de um compromisso gerado pelo ato da confissão, que por sua vez é como a assinatura de um documento que diz: não vamos mais passar por aquele caminho que nos levaram até àquele ponto de nossa vida. Vê como é uma sucessão de prisões, ainda que com nomes e condições diferentes? Ufh! Então estamos irremediavelmente perdidos? No que depender única e exclusivamente de nós, é provável que não haja cura. Mas, vamos esperar para ver. Continuemos em frente. Quem sabe não acharemos uma brecha pela qual escapar? Mas continuemos do ponto em que começamos ___as guerras pela liberdade e independência.

Quando falamos em liberdade e independência, logo nos vêm à mente algo do tipo que aprendemos nos livros escolares de histórias ou outros. Porém, o desejo de liberdade transcende as histórias das várias nações do mundo e vai além da esfera didática.  O sonho de liberdade ___pode-se dizer ___é, ainda que inconscientemente o objetivo de cada homem sobre esse vasto mundo, quiçá é um mundo a conquistar por cada homem em particular, quer seja pequeno ou do tamanho do impossível. De fato, todos nos estamos imbuídos nessa luta que, não duvide, durará até o último hálito de vida de todos nós.  

Pela liberdade os homens mataram e morreram e, os que morreram como todo e qualquer que morre, tornaram-se prisioneiros da sepultura e cativos da morte. Na sua luta criaram nações e estabeleceram fronteiras e, por conseguinte, constituíram uma prisão, ficando sujeitos a limites de territórios que para ser transposto necessário se faz que esteja de posse de um documento que lhes  permita ir e vir. Assim, além de ser cativo de um limite territorial, é escravo de uma norma que só o faz livre para ir e vir se estiver sujeito às normas que determinado documento regulamenta quanto a sair e entrar pelas fronteiras que estabeleceram. Sem poder escapar, não do ponto de vista humano, onde quer que o homem vá, faça o que fizer, continuará um escravo; um prisioneiro em toda e qualquer instância que puder imaginar. Por viver de necessidade, o homem é cativo de possuir. Ao adquirir, é se faz cativo daquele de quem adquiriu que por sua vez é prisioneiro do adquirente e assim a lista se estende aos limites da concepção daquilo de que se precisa ou que mesmo se julgue necessitar na sobrevivência diária. Parece desesperador?  Pode ser que sim, mas se tomássemos consciência de quem realmente somos; de que, seja em que direção olhar, não há liberdade real e verdadeira, talvez assim começássemos a forjar a liberdade com que muitos sonharam e pela qual morreram e ainda morrem.

Do ponto de vista co-relacional, os homens se escravizam por contratos de varias naturezas que chegam, alguns, a durarem uma vida inteira e isso pela suposta “liberdade” de poder decidir pelo que é bom para si mesmo. No âmbito da família não é raro o filho se rebelar contra os pais porque quer ser livre das normas que regem a família ___ironicamente uma forma de "cativância" ___e acaba por enveredar-se por caminhos que julga ser de libertação, mas que acabam por levá-lo a outras formas de cativeiro, na maioria das vezes cruéis e assassinas, dando-se severamente mal.

Continua...



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